O verdadeiro valor está também na consultoria, na configuração e na melhoria contínua do sistema.

Quando se fala na aquisição de uma solução de Segurança, a conversa tende a concentrar-se nos elementos mais visíveis e mais fáceis de comparar: câmaras, sensores, servidores, controladores, licenças de software, capacidade de armazenamento ou funcionalidades disponíveis.

É natural. São componentes concretos, têm referências comerciais, preços e fichas técnicas. No entanto, esta forma de avaliar uma solução pode conduzir a uma conclusão errada: assumir que a qualidade do sistema depende, essencialmente, da qualidade dos equipamentos adquiridos.

A experiência mostra precisamente o contrário. Um sistema tecnicamente muito competente pode apresentar resultados medíocres quando é mal configurado, quando os parâmetros de operação não foram devidamente estudados ou quando a solução foi entregue sem um período sério de afinação em contexto real. Já acompanhei projetos em que plataformas de reconhecida qualidade foram rapidamente classificadas como pouco eficazes ou mesmo inadequadas. Depois de uma análise mais profunda, o problema não estava na tecnologia, estava na forma como tinha sido configurada e ajustada à operação concreta do Cliente.

Esta distinção é importante porque um sistema de segurança não é um produto isolado. É um conjunto de tecnologias que tem de funcionar dentro de uma realidade operacional específica. Dois clientes podem adquirir exatamente o mesmo equipamento e obter resultados completamente diferentes. A localização dos dispositivos, os níveis de sensibilidade, as regras de alarme, os tempos, as exceções, os perfis de utilizador, os fluxos de atuação, a integração entre sistemas e até à forma como os operadores trabalham, influenciam diretamente o desempenho final.

Por esta razão, a configuração inicial não deveria ser encarada como uma simples tarefa técnica executada no final da instalação, mas sim ser entendida como uma fase de engenharia e consultoria. É nesse momento que se traduzem as necessidades do cliente em regras concretas de funcionamento (e essa tradução raramente fica perfeita à primeira tentativa, porque há comportamentos, exceções e necessidades operacionais que só se tornam evidentes quando o sistema começa efetivamente a ser utilizado).

É aqui que surge um dos principais pontos de tensão nos projetos: o tempo dedicado à análise, configuração e acompanhamento tem um custo. Muitas vezes, esse custo é mais difícil de valorizar do que uma câmara, um servidor ou uma licença. O cliente consegue ver o equipamento que está a comprar, mas nem sempre consegue perceber antecipadamente o valor de várias horas de trabalho de um técnico ou consultor a analisar eventos, rever parâmetros, testar cenários e ajustar o sistema. Como consequência, existe uma tendência para reduzir esta componente do projeto – precisamente aquela que pode determinar se o investimento tecnológico vai ou não produzir o resultado esperado.

Na minha perspetiva, esta lógica deve mudar. A entrega de uma solução de segurança deveria incluir três momentos distintos: configuração inicial, observação do comportamento do sistema em operação e melhoria progressiva. Depois da entrada em funcionamento, importa analisar alarmes, falsos positivos, tempos de resposta, utilização pelos operadores e eventuais desvios entre aquilo que foi projetado e aquilo que acontece na realidade. Com essa informação, o sistema deve ser afinado até se aproximar o mais possível das necessidades concretas da operação.

Este processo não significa que a solução tenha sido mal instalada. Pelo contrário, significa reconhecer que sistemas complexos precisam de ser ajustados à realidade. Tal como não se espera que um processo operacional sofisticado atinja a sua máxima eficiência no primeiro dia, também não se deveria esperar que uma plataforma de segurança alcance o seu melhor desempenho apenas com uma configuração inicial baseada em pressupostos de projeto.

Em vários projetos que acompanhei, esta abordagem fez a diferença. Quando o cliente permitiu que a equipa técnica tivesse tempo para observar o sistema, compreender a operação e ajustar os parâmetros com base em dados reais, os resultados melhoraram de forma clara. Em alguns casos, sistemas que inicialmente eram vistos como problemáticos ou insuficientes passaram a responder de forma consistente às expectativas. Não houve uma substituição radical da tecnologia, houve conhecimento aplicado à tecnologia.

Também na Strong Charon temos encontrado situações em que a confiança do cliente para realizar este trabalho adicional de análise e afinação produziu benefícios para ambas as partes. Para o cliente, significou retirar maior valor do investimento já realizado e obter uma solução mais alinhada com a sua operação. Para o integrador, permitiu compreender melhor o ambiente real, corrigir pressupostos e entregar um resultado tecnicamente mais sólido. Em muitos desses casos, a diferença não esteve em fornecer mais equipamentos, mas em dedicar mais horas de consultoria, configuração e acompanhamento.

Este é, provavelmente, um dos aspetos menos visíveis da transformação tecnológica no setor da segurança. À medida que os sistemas se tornam mais inteligentes, integrados e configuráveis, aumenta também a importância do conhecimento necessário para os colocar a funcionar corretamente. Ter mais funcionalidades não garante melhores resultados. Pelo contrário, quanto maior for a capacidade de configuração de uma plataforma, maior é a responsabilidade de a configurar de acordo com o contexto em que vai operar.

Por isso, quando se avalia uma proposta de segurança, talvez seja necessário deixar de perguntar apenas quais são os equipamentos, as licenças e as funcionalidades incluídas. Há outras perguntas igualmente importantes: quem vai configurar o sistema, quanto tempo está previsto para a afinação, como será acompanhado o comportamento depois da entrada em produção, que métricas serão analisadas e quem ficará responsável por propor melhorias.

No final, uma solução de segurança eficaz resulta da combinação entre tecnologia, conhecimento e operação. Equipamentos de qualidade são fundamentais, mas não compensam uma configuração inadequada.

Uma boa configuração não é um custo acessório do projeto, é uma parte essencial do investimento, porque é ela que transforma capacidade tecnológica em resultado operacional. Por vezes, aquilo que parece ser um mau sistema é apenas um bom sistema que ainda não foi corretamente compreendido, configurado e afinado.

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Mário Rui Martins – R&D Product Manager da Strong Charon